domingo, 27 de julho de 2008

Semideiro

Um demônio colubrino na pele de um cordeiro
Lacera-me o peito, extirpa-me as entranhas,
Incinera meus olhos, tritura meus lábios,
Impinge-me seco, como um deus ao calino.

Invado-o e crava-me como a terra o esteiro -
Um mar de deleites em meio a barganhas:
Chora sua dor terebrante em gemidos ávidos
Choro minha dor surda num brado supino.

Sobre meu ventre, as lágrimas do desejo meeiro,
Em seu negror, minhas lágrimas e suas artimanhas,
Adormecido, por fim, o queimor de nossos avios,
Desperta a lucidez morosa e meu pesar repentino.

E nos vestígios intactos deste semideiro
A sinfonia inebriante de notas risonhas:
Canta-me eloqüente o amor em timbres áridos
E canto-lhe calado o meu desatino.

Dimas Gomes.


Untitled, Francis Bacon.

Fim de Festa


Odeio aquela sensação de fim de festa. Odeio quando a maioria das pessoas já se foi e tudo está melancolicamente quieto, com o chão marcado e sujo pela agitação de algumas horas antes.

Eu odeio esse clima de fim de festa que habita nos velhos. Imagino como deve ser viver num mundo de recordações mortas, onde os jovens não te entendem, e a maioria das pessoas que lhe entendiam já se foram. A festa está acabando e o velho é um dos últimos a sair. Ele fica sozinho, lembrando que poucas horas antes o amor da vida dele e ele eram jovens dançando no salão. Que apenas alguns minutos atrás ele e seus amigos estavam rindo, sentados na mesa. E então ele se dá conta de que cada pessoa com quem ele compartilhou essa festa da vida foi embora, sobrando apenas ele.
E quem são essas pessoas estranhas que dizem o conhecer? Quem são essas pessoas cheias de vida, que falam uma linguagem estranha, cultivam valores estranhos e representam um novo e estranho mundo que surge para que o antigo seja esquecido? São os filhos e os netos - dele e dos seus companheiros - reformulando e destruindo tudo o que eles construíram. Ninguém mais quer saber das suas aventuras, das músicas que a sua geração gostava, das alegrias que eles viveram. O velho está só.

Eu tenho horror a isso tudo. Quero morrer jovem, animado e cheio de planos. Quero ser o cara que vai embora no meio da festa, se despedindo de todos, alegre e grato pelos momentos juntos. Deus me proteja de permanecer até o fim; limpando a sujeira de quem se foi, olhando os retratos de um tempo tragado pelo passado impalpável, suspirando saudoso enquanto vaga pela casa vazia da velhice.

sábado, 29 de março de 2008


Sexo e Cirrose.

Do nada Seu César pôs o luto.
Sua mulher chateou-se,
Mesmo sem entender.

- E esse luto, homi?

- Uma amiga que morreu.

Neves sequer sabia
Que o marido tinha amigas.

- Mas que amiga é essa agora?

- Música, filha da comadre Cultura.

Está caduco, sem dúvidas,
Só pode,
Disse a mulher.

- Morreu de quê?
- Sexo e cirrose;
E ainda foi vítima de necrofilia...
Acho que por ter sido adúltera.


Lalo Oliveira.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Dia de Chuva

Não é como quando eu andava na chuva de tarde, levado pelo violento vento; respirando o vazio, definhando no frio. O banho gelado me trouxe lembranças antigas, juntamente com o sorriso dela eternamente cristalizado em minha lembrança. Mas não é como antigamente, assim como as gotas espalhadas por meu corpo que eu evitei secar não me trazem a mesma sensação de andar na chuva numa tarde gelada e cinza.
Não sei o que a maioria das pessoas sente, mas um dia gelado e cinza para mim é revigorante. Creio que quem fica deprimido nesses dias, assim se sente por ficar trancafiado em seu hospício particular, o seu inferno quentinho de onde vê pela janela a vida voando para longe. Andar na rua em um dia desses é um oásis de paz na minha mente cheia de pensamentos que batalham e se destroem sem respeitar o pobre invólucro que os armazena. O segredo do sucesso depende das vestimentas: camiseta, calção e chinelos.
Eu nunca planejei o destino. Acompanhado ou só, ao vagar errante pelas ruas empoçadas e pela praia deserta, o frio intensificado pelo vento matava minhas dores a cada minuto. Começava ao congelar as extremidades dos dedos, depois as pernas e os braços; até finalmente alcançar meu peito e parar meu coração. Aí eu era feliz. O ruim de estar acompanhado às vezes é que freqüentemente os companheiros reclamavam do frio e queriam se proteger.
E o vento no cabelo? Era o único carinho desinteressado que me dava prazer; que distraidamente descia por meu pescoço apaixonado pelo ócio. À beira mar então, misturado com a maresia que emanava do bramir das ondas furiosas e com a areia molhada massageando os dedos dos pés, eu despertava para os sentimentos de insignificância e gratidão por estar vivo para sentir aquilo. Todos os meus problemas ficavam pequenos e eu parava de me dar tanta importância.
Mas não é como antigamente. Quando a vejo uma vez por mês, dois anos depois, nenhum choro desce pela minha garganta. Nenhum menino grita no meu coração. Podemos até estar abraçados, mas em universos diferentes. Eu pedi tanto pra morrer que consegui. Talvez por isso os dias de chuva não sejam mais como antigamente. Eu não preciso mais deles.
É inegável que a cada manhã acordamos um pouco mais velhos e conformados. Mas eu acho que envelheci mais do que devia em algum lugar na praia, num dia de chuva.

domingo, 16 de dezembro de 2007

Entre Roupas e Diários




Esqueceu-se no guarda-roupa.
Era pequena e ali cabia perfeitamente. Abriu as portas, entrou às pressas, encostou-se sentada com os joelhos no rosto e as mãos cobrindo os olhos. Parecia que chorava, e já derramava algumas poucas lágrimas.
Não queria mais pensar naquilo que acontecera. Mais que um lugar para chorar em paz, sem a perturbação de perguntas ou questionamentos intrusivos, ela queria um lugar para se esconder. Se esconder do mundo, das pessoas que a cercavam, daquele povo que pensava apenas em si mesmo e não a via.
Tinha melancolia, tristeza, angústia, talvez tudo ao mesmo tempo. Não conseguiria expressar aquilo em palavras, até porque não havia quem a escutasse. Então comunicava sua dor através de lágrimas vadias e suaves.
Pra ela, aquele era o lugar onde nunca seria encontrada, o esconderijo mais perfeito da casa. Como pensariam em alguém escondido em um lugar onde apenas se escondem as roupas, os diários e os ursinhos de pelúcia não mais queridos? Um lugar fechado, escuro, completamente escuro, e abafado – muito! Definitivamente não a encontrariam ali, nem às suas lágrimas.
Em nenhum momento ela me disse por que chorava tanto, qual a causa de tanta tristeza e desespero. Sentava-me à frente dela naquele espaçoso guarda-roupa, isso eu sabia por que nossos pés se tocavam. Eu não me dispus a perguntar nada, pois sabia que era a última coisa que ela queria naquele momento. Nem ousava toca-la; talvez deixa-la só, um pouco só, fosse a melhor coisa a se fazer.
Em algum momento, ela pousou os olhos sobre os meus, pois pude ver naquela escuridão o brilho de seus olhos. Me olhou por um momento, buscando em meus olhos alguma resposta que eu, ainda tão pequeno e tão sozinho, não sabia dizer. Fiquei triste com isso, e de alguma forma, como reação, movimentei meus pés. Logo pude ouvir um risinho meigo e tão suave aos meus ouvidos. Mexi de novo, percebendo que assim mexia os dela também, e outro riso me alimentou a minha audição. E naquela alegria e inocência de criança ficamos brincando horas e horas, nos divertindo piamente, fazendo cosquinhas um no outro! E assim, tão alegremente, parecia que conseguíamos dissimular a solidão um do outro...a minha solidão.
Foi então que abriu-se a porta da direita do guarda-roupa, à frente de onde ela havia sentado-se; os pais haviam encontrado seu esconderijo e com palavras doces a atraíram até seus braços. Ela olhou pra mim, sorriu, e até deu um pequeno aceno, que fez surgir a curiosidade deles. “Deve ser um amiguinho da cabeça dela, meu bem!”, adiantou a mãe.
Ainda os vi enxugando as suas lágrimas, o pai a pondo no colo, e a mãe fechando o guarda-roupa...olhou ainda para dentro, para ver se encontrava alguma coisa que explicasse o aceno da filha, mas a luz que entrava pela porta não chegava até mim, e não me viu.
Parecia que tudo voltava ao normal, e escutei o que parecia um abraço à trois, com ternura e com afeto. Voltava também à minha solidão, e ao meu desaparecer dentro daquele grande e escuro guarda-roupa.
Desaparecido do nada, e de não sei onde.
Emerson Cunha


(fonte: http://ohvidacruel.blogspot.com/2007/04/brincar-no-armrio.html)

domingo, 25 de novembro de 2007

"escola"


Lá na zona rural, os meninos
Vão descalços pra "escola",
Com seus pés miúdos na terra quente
E um sorriso mal feito na cara.

É uma "escola" muito engraçada,
Não tem teto, não tem nada.
Tem apenas os galhos das árvores
Fazendo melodia com a voz da professora.

E a professora, coitada,
Tem tão boa intenção,
Mas dá aulas de história
Sem saber de que nação.

Merenda? Num tem não.
A não ser as mangas das árvores
Que servem de "escola"
Pros meninos do sertão.

Tentam aprender português
De quem não sabe,
E de literatura só conhecem
Os repentes dos avôs.

Pensam que matemática
É contar bolinhas tortas
Em cadernos aramados
De cinqüenta centavos.

Mas apesar disso tudo,
Os meninos ficam felizes
Quando é hora de ir pra aula.
Vão depressa, saem contentes,
Andando a pé rumo à "escola".

Lá na cidade grande, o filho do doutor
Vai de carro importado, com motorista,
Pra sua Escola luxuosa
Que tem até elevador.

E muito demora a levantar.
Passou a noite no computador,
Vendo bobagens na internet.
Quer dormir mais um pouco,
Que o ar condicionado está bom.

No país onde isso acontece
Tem verba para educação,
Mas não constrói o colégio dos meninos
Do agricultor e do peão.

Em que cueca foi parar a Escola?






(Fonte: ACT Angola digital Net)

domingo, 18 de novembro de 2007

A árvore bicentenária

Bem no meio da praça esquecida
Uma árvore de raízes colossais
Atravessa o tempo em solidão desmedida,
Assistindo aos espetáculos de gestos boçais.

Tronco invejoso dos ciganos. Murmura o seu lamento...
Recebe dos animais a excreção
E na ânsia de lavar-se em purificação
É pescador de presságios trazidos pelo vento!

Cúmplice dos atos mais escarninhos
Em tua sombra segredaste amores disfarçados,
Amante virgem de bêbados cansados
Nutres de mágoa o teu corpo daninho.

Ontem, escondeu-se em ti uma criança
[escapando um carinho
Pássaros se divertem entre teus galhos, fazem ninhos...
__ Árvore Mãe de centenas de anéis:
São só breves afagos infiéis!

Árvore de senis histórias,
Quão penoso é seu legado!
Nunca contarás um instante de vitória,
Condenada à prisão eterna dos pecados.

Gabriela Arruda