Esqueceu-se no guarda-roupa.
Era pequena e ali cabia perfeitamente. Abriu as portas, entrou às pressas, encostou-se sentada com os joelhos no rosto e as mãos cobrindo os olhos. Parecia que chorava, e já derramava algumas poucas lágrimas.
Não queria mais pensar naquilo que acontecera. Mais que um lugar para chorar em paz, sem a perturbação de perguntas ou questionamentos intrusivos, ela queria um lugar para se esconder. Se esconder do mundo, das pessoas que a cercavam, daquele povo que pensava apenas em si mesmo e não a via.
Tinha melancolia, tristeza, angústia, talvez tudo ao mesmo tempo. Não conseguiria expressar aquilo em palavras, até porque não havia quem a escutasse. Então comunicava sua dor através de lágrimas vadias e suaves.
Pra ela, aquele era o lugar onde nunca seria encontrada, o esconderijo mais perfeito da casa. Como pensariam em alguém escondido em um lugar onde apenas se escondem as roupas, os diários e os ursinhos de pelúcia não mais queridos? Um lugar fechado, escuro, completamente escuro, e abafado – muito! Definitivamente não a encontrariam ali, nem às suas lágrimas.
Em nenhum momento ela me disse por que chorava tanto, qual a causa de tanta tristeza e desespero. Sentava-me à frente dela naquele espaçoso guarda-roupa, isso eu sabia por que nossos pés se tocavam. Eu não me dispus a perguntar nada, pois sabia que era a última coisa que ela queria naquele momento. Nem ousava toca-la; talvez deixa-la só, um pouco só, fosse a melhor coisa a se fazer.
Em algum momento, ela pousou os olhos sobre os meus, pois pude ver naquela escuridão o brilho de seus olhos. Me olhou por um momento, buscando em meus olhos alguma resposta que eu, ainda tão pequeno e tão sozinho, não sabia dizer. Fiquei triste com isso, e de alguma forma, como reação, movimentei meus pés. Logo pude ouvir um risinho meigo e tão suave aos meus ouvidos. Mexi de novo, percebendo que assim mexia os dela também, e outro riso me alimentou a minha audição. E naquela alegria e inocência de criança ficamos brincando horas e horas, nos divertindo piamente, fazendo cosquinhas um no outro! E assim, tão alegremente, parecia que conseguíamos dissimular a solidão um do outro...a minha solidão.
Foi então que abriu-se a porta da direita do guarda-roupa, à frente de onde ela havia sentado-se; os pais haviam encontrado seu esconderijo e com palavras doces a atraíram até seus braços. Ela olhou pra mim, sorriu, e até deu um pequeno aceno, que fez surgir a curiosidade deles. “Deve ser um amiguinho da cabeça dela, meu bem!”, adiantou a mãe.
Ainda os vi enxugando as suas lágrimas, o pai a pondo no colo, e a mãe fechando o guarda-roupa...olhou ainda para dentro, para ver se encontrava alguma coisa que explicasse o aceno da filha, mas a luz que entrava pela porta não chegava até mim, e não me viu.
Parecia que tudo voltava ao normal, e escutei o que parecia um abraço à trois, com ternura e com afeto. Voltava também à minha solidão, e ao meu desaparecer dentro daquele grande e escuro guarda-roupa.
Desaparecido do nada, e de não sei onde.
Emerson Cunha
(fonte: http://ohvidacruel.blogspot.com/2007/04/brincar-no-armrio.html)